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Mas para que raio quero eu um blog?

Um blog sem pernas para andar, com uma dona sem vontade de escrever.

Um blog sem pernas para andar, com uma dona sem vontade de escrever.

Mas para que raio quero eu um blog?

16
Abr24

A minha tia velha.

Carla

Antes das sete e meia a minha tia,  enquanto abria as persianas, avisava-nos em tom assertivo, "se é para ficarem a dormir, não aproveitamos a praia". Fizesse chuva, sol, vento, nublado, lá iamos nós a toque de caixa banhar o corpo nas àguas "mornas" da praia da Figueira. 

Enquanto tomávamos o pequeno almoço, entre o " despachem-se" e o "a praia é boa é de manhã cedinho", ela preparava o farnel. Alugava barraca durante o dia todo, e tinhamos de carregar comida suficiente, porque não havia o pedir isto ou aquilo na praia, com muita sorte tinhamos direito a um gelado ou a uma bolacha na praia, se nos portássemos bem.

E lá iamos os cinco, eu, a minha irmã e o meu irmão, a minha prima e a minha tia, a pé de Tavarede até à praia de Buarcos, cada um com uma mochila às costas, onde ia o farnel, a garrafa de àgua e a toalha. A minha tia encarregava-se de transportar também o saco com os brinquedos.

De vez em quando juntava-se a minha outra tia, "moça fina de Lisboa", chegava à sexta e ia embora domingo, alugava quarto na zona do Bairro Novo, conduzia um citröen boca de sapo beje, e gostava de frequentar o casino. Mas esta minha tia nunca teve estatuto de tia, porque era só a namorada do meu tio. Tia era a mãe dos meus três primos que faleceu antes de eu nascer,  que me escolheu o nome porque iria ser minha madrinha. Algumas vezes fazia-se acompanhar pelo filho dela, mas o puto já tinha meia dúzia de pelos na "venta", a onda dele era outra e longos dias de praia sem os amigos era "uma seca". 

A minha mãe, empregada de limpeza na casa de uns "senhores" raramente nos acompanhava, o meu pai, empregado de distribuição num armazém de bebidas, tirar férias no verão era impensável, era altura de muito trabalho. Ao fim de semana, normalmente iamos até à lagoa de Mira onde faziamos um picnic que durava até à noitinha.

Assim que chegávamos à praia ia tudo ao banho. Se estava fria iamos na mesma, porque a minha tia dizia que "àgua quente é em casa", verdade que depois de estarmos lá dentro ninguém queria sair. E ali ficava ela, de pé com as mão na cintura, à beirinha da àgua a vigiar-nos, a bata até abaixo do joelho,  a minha tia nunca usava fato de banho porque tinha muitas varizes, e as "varizes querem banho de mar mas não podem apanhar sol".

Na hora de almoço e depois de comermos as sandes, naquela hora em que o sol "está muito forte" ninguém saía de dentro da barraca, e só podíamos ir à àgua depois de fazer a digestão, que ela controlava com rigor no seu relógio de pulso. Assim que nos dava ordem de soltura, corriamos viradas ao mar para mais uns banhos, enquanto ela ficava sentada na toalha à porta da barraca, com uma toalha em cima das pernas, a fazer renda. Volta e meia lá nos dava um berro, ou porque estávamos muito dentro do mar, ou porque a minha irmã amuava e ia sentar-se perto dela.

No fim do dia, depois de muitas horas dentro da àgua, ela ordenava que fossemos para as toalhas, ninguém saía da praia enquanto os fatos de banho não estivessem completamente secos, porque não queria que ninguém fosse o caminho de regresso a casa, a queixar-se que estava com as pernas assadas por causa da roupa molhada.

No fim de Agosto regressava a Lousa, uma aldeia perto de Loures, na camioneta com destino a Lisboa, mas antes de embarcar, entre muitos beijos e abraços, às escondidas da minha mãe dáva  uma notinha a cada um, uma mania que ainda hoje tem.

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A minha prima diz que andava de volta dos albuns de família e descobriu esta pérola, de Agosto no ano de 1985.

 

 

 

 

24
Fev24

Caldeirada de assuntos.

Carla

Quatro graus às catorze e trinta da tarde. Boa tarde. 24 de Fevereiro, Sábado.  Acabei de comer um pain au chocolat, foi-me oferecido com tanto carinho enquanto limpava a entrada do prédio, não podia recusar, e soube-me muito bem. Eu que andei uma semana toda a evitar o açúcar, mas dias não são dias. Entretanto já me enervei, fui aos correios, na Segunda recebi um aviso de uma carta registada que vinha de Portugal, só Deus sabe o que me chateia ter de ir aos correios por causa do tempo que lá se perde. Era o boletim de voto, já ontem me questionei quando chegaria. Chegou Segunda, já o tenho comigo, já posso exercer o meu direito de votar. O sol já espreitou hoje, assim como já choveu e também já caíu granizo, o vento sopra frio, está desagradável para andar na rua. Também já passei no supermercado mas tenho de lá voltar,  tenho também voltar ao prédio, deixei-me ficar na ronha esta manhã e o restaurante estava já a funcionar quando limpei a entrada. As camas estão feitas de lavado e os lençois estendidos na varanda para secar, se o tempo ajudar. Uma máquina de roupa escura está já em andamento. Recebi uma mensagem daquelas que não sei muito bem o que responder, a vontade foi não responder ou segunda hipótese, responder e mandar à merda, ele há pessoas que criam a sua própria infelicidade, não aceitam que não vale a pena insistir, confundem um sentimento de amizade com algo mais e teimam em viver infelizes, lamento não corresponder às expectativas criadas. Não respondi. O silêncio é uma resposta, há que o entender. Mas como isto dura há mais de um ano, talvez a compreensão esteja difícil. Paciência. E eu que agora devia estar a teclar naquilo que me pertence fazer, estou aqui sentada no sofá a teclar uma caldeirada de assuntos. Boa tarde, outra vez.

29
Jan24

Se tu soubesses o quanto te sou grata.

Carla

As coisas não acontecem sempre como planeamos. A vida é assim em tudo, até nos casamentos. Os motivos que levam a uma separação podem ser muitos, no nosso caso foi não olharmos na mesma direção. Se um casamento é caminhar juntos, nós caminhámos em sentidos opostos. Independentemente das coisas que levaram à separação, ninguém teve culpa, aconteceu. E ambos seguimos a vida que planeámos e que melhor nos servia. Nunca me interessou muito o procurar respostas para o porquê. A separação aconteceu. Pronto! Foi o seguir em frente. Nunca me interessou muito saber porque te separaste de mim e do teu filho, a ti te diz respeito a decisão que tomaste.

Mas sou te grata.

Nunca precisei de dividir o miúdo contigo. Todas as férias, natais, fins de semana foram meus. Eu tive a oportunidade de o ver crescer todos os dias, e de partilhar com ele todas as fases de crescimento, a infância, adolescência e vê-lo tornar-se no adulto responsável, integro, coerente, lutador, bem formado, ambicioso que é.  Eu tive o privilégio de com ele viver os episódios mais divertidos e caricatos, como quando fez pela primeira vez a barba ou quando teve a primeira relação sexual. Eu tive a honra de assistir aos triunfos, de o proteger quando teve medo e de o incentivar quando teve dúvidas. 

Como não te ser grata, por me teres deixado só com ele nesta aventura que foi vê-lo crescer? 

Podes ter tido uma vida cheia de viagens inesquecíveis, podes ter velejado pelos sete mares, ter conhecido pessoas fantásticas... mas esta aventura serei te eternamente grata por ter sido só minha. 

 Fizemos escolhas.

A ti pai do meu filho, obrigada pela escolha que fizestes.

A ti que durante 15 anos deste sinal de vida 3 vezes... a ti que hoje telefonaste só para saber como estamos... estamos bem e a única coisa que sempre quisemos é que fosses feliz. 

 

 

31
Dez23

Em 2023...

Carla

... comecei o ano em Liège na companhia do meu filho, namorada e colegas da universidade. Se os mais velhos têm sempre muito que nos ensinar, os mais jovens também, gosto de os ouvir e viver rodeada deles. Joguei pela primeira vez drunk pong, mas não quero falar sobre isso. Revisitei Bruxelas, este deve ter sido o pior dia do meu ano, viajar com alguém que não gosta, nem aprecia é um tormento. Pus ponto final a uma relação, que vinha a mostrar não ter pernas para andar, lá dizia Rui Veloso "não se ama alguém que não ouve a mesma canção".  Ainda em Janeiro, numa sexta à noite, sem nada para fazer, decidi que não me apetecia passar o fim de semana no Luxemburgo, desafiei duas amigas, comprei bilhetes de última hora no city night bus, que arrancou às 2h da manhã e fomos visitar Colmar e umas aldeias nas redondezas super giras. Estas coisas dão-me, às vezes. Propus-me fazer os 158 km do Escapardenne Trail, que dividi em 12 etápas, só fiz 4. Shame on you girl! Passei 6 dias fabulásticos em Itália, com duas amigas. 6 dias/5 locais era o previsto, mas ao chegar a Bari, a última cidade da lista, a passar num museu vi que estava uma exposição, que andava há anos para ver, Body Worlds, e arrastei-as para dentro do museu. Podemos sempre voltar a Bari. Este foi o ano que mais vezes fui a Portugal, reencontrei "velhas" amigas, fui acarinhada, senti a frieza de outras, beijei e abracei os meus pais até se cansarem, visitei e revisitei locais lindíssimos, assisti a nasceres e pores de sol magníficos. Não li tanto como tinha previsto, deixei alguns livros de parte. Assisti a bons concertos de música, na companhia das minhas pessoas de coração, vocês batem forte cá dentro. Fui almoçar a Genebra e a Maastricht, só porque me apeteceu. Desci às profundezas da terra em Dinat e Mira de Aire para visitar grutas, e no Luxemburgo visitei umas minas, percorri kilometros à procura de cascatas, subi ao alto das montanhas em Annecy e nos Voges para me sentir mais perto do céu e admirar a cor dos lagos, voltarei para apreciar as paisagens com neve. Andei num comboio de 1900 e vesti-me segundo os trajes da época, o meu respeito a todas aquelas senhoras que conseguiam respirar com um espartilho e fazer xixi com tanta coisa vestida. Cancelei 2 viagens, Cracóvia e Picos da Europa, por motivos profissionais, continuam na lista. Fui "vitima" de pfishing, vitima entre aspas, porque perdi o dinheiro por burrice minha, dei-o de mão beijada no dia em que resolvi abrir e responder ao mail. Paciência... passei horas a levantar ferro no ginásio, não tantas como gostaria, as que foram possiveis. Participei pela primeira vez numa maratona, mas em modo caminhada, talvez um dia decida correr. Conheci pessoas novas, algumas levo para 2024, outras ficam pelo caminho. Criei um blog, só porque achei que era capaz de ser uma cena gira, gosto de vos ler. Aproveitei pouco dos meus netos, uma situação a ser mudada no próximo ano. Tive algumas desilusões, nem tudo são rosas... mas gosto e sempre gostei de guardar só o que é bom. Foi um ano bem vivido!

Não sei o que 2024 me reserva. Mas sei que não será aborrecido!

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